Serão sempre cães.

 
Nasci em Meinedo há 50 anos. No verão adorava escutar um velhinho de longas barbas brancas. Era um velhinho curioso e sábio.

Costumava dizer:

- Há pessoas que são como cães. E há cães que não conhecem o dono.

Eu olhava-o perplexo! E ele continuava.

- Há pessoas que são cães. Há pessoas que serão sempre como cães. Há pessoas que nunca mudarão: morrerão como cães.

O meu olhar de espanto não o comovia. Ele continuava.

- Serão sempre cães. Viverão sempre como cães. Piores serão aqueles que se intitulam, se afirmam, como pertencendo a parte alguma, não sendo de Alvarenga, de Lisboa ou de Moscovo mas pertencendo ao Mundo, esses serão e viverão e agirão como verdadeiros cães, pois não são de nada nem de ninguém e vivem num mundo só deles: medo, angústia; enfim, um labirinto que nem Freud consegue explicar. Cuidado com estes cães: mordem sem razão aparente, serão sempre cães sem dono.

publicado por José Carlos Silva às 12:38 | link do post | comentar