O fim do estado de graça

Três meses é um espaço temporal para um estado de graça na política. Três meses é suficiente para verificar que nada vai mudar, nem no estilo nem na forma. Não posso chamar a este deambular por uma presidência de câmara uma continuidade tranquila e natural, é antes de tudo mais do mesmo ou pouco de mais alguma coisa substantiva.

Assim, quando o ano finda, despedindo-se na sua agonia periclitante, podemos afirmar: nada mudou, nada vai mudar e tudo continuará como dantes no quartel de Abrantes.

A tutela estratégica continuará, agora reforçada por uma energia mais jovem, emergente estrela do circuito familiar que nem Fellini ousaria retratar. Numa ditadura tudo parece normal, numa democracia há a perdição da curiosa inocência, enquanto numa monarquia a sucessão ou a troca de cadeiras é tão aceitável que ninguém questiona. Assim, há a certeza de a ditadura não existir, a monarquia existir mas disfarçada em enganos, e, por último, a democracia ser uma aparente forma de existir mesmo não existindo.

Dirá o mais iluminado dos iluminados: vivemos em democracia. Direi na minha ingenuidade: sim, mas nunca em locais que a monarquia seja rainha e a ditadura de um estratega, elevado a general, seja lei ao fatídico ponto de iniciar democraticamente um cabo nas artes de comandar a tropa sem nunca ser eleito para mandar.

Eu que tinha prometido a mim mesmo que iria assistir de cadeira ao desenrolar do filme, Fellini que me perdoe, sou arrastado pela minha consciência democrática a persistir. Não resisto.

publicado por José Carlos Silva às 21:47 | link do post | comentar