IV República

    

 

Quando 2013 se despede e prenuncia 2014 algo diferente, pontilhado de alguns sorrisos, quiçá de uma esperança muda, é natural este apelo de renovação ou a firme certeza que só reinventando Portugal haverá uma saída para os portugueses.

Reinventar o futuro é sinónimo de mudar as raízes do regime, de mudar o olhar de quem inova, mudar a vontade de quem quer mudar, pois não basta falar em mudar, não basta em prometer a mudança, é necessário querer mudar.

E mudar é sinónimo de dor, sinónimo de rasgar as vestes do silêncio e do comodismo, sinónimo de aceitar um novo desenho do status quo, sinónimo de derrubar as muralhas do poder reinventando-o e edificando-o à luz deste tempo e das suas necessidades.

Poderemos colocar um espelho – o nosso país – e fazermos uma viagem ao seu caminho. Poderemos olhar e ver o caminho largo e que deixou saudades, o caminho da Monarquia. O seu esplendor e o seu naufrágio trágico.

Poderemos olhá-la, a Monarquia, no seu estertor, como um verdadeiro espelho da nossa crise, do nosso resgate, do nosso desespero e da nossa negação em pagar as nossas misérias, as nossas dívidas. No seu longo percurso a Monarquia foi desafiada nas suas estruturas pelos resgastes que produziu fruto das megalomanias de reis e de príncipes, nunca deixando derrubar-se e prevalecendo o seu esplendor.

Poderemos olhar a Monarquia como um regime que precisava de se reinventar e não foi capaz e daí se derrubar a si mesma. Poderemos olhá-la como um regime de saudade, pois a I República afirmou-se num banho de sangue e nunca o republicanismo se livrou disso.

Poderemos olhar a I República como um hiato, pois nunca soube ser poder ou nunca exerceu o poder para o povo e pior: manteve as estruturas do regime monárquico, vivendo Portugal numa «quase ditadura republicana», dado a oposição ser esquecida do seu papel de fiscalização do poder republicano.

A II República ou a ditadura aparece como corolário dos desvarios dos republicamos, sanando a dívida, recolocando nos eixos a dignidade do país, mas amarfanhando a liberdade. Mudando o regime e os seus desvarios, terminando por o anquilosar, inexoravelmente, ao longo do seu longo reinado. Também cessou pela força.

A atual República, a terceira, deu os seus primeiros passos assumindo um percurso revolucionário e consequente desmantelamento do regime anterior e das suas estruturas. A década de oitenta do século passado firmaria um rumo: fixação de um regime alicerçado nos interesses dos três partidos do arco do poder com as devidas consequências. Após três resgates, neste espaço temporal, nada mudou na forma e no estilo de vida dos portugueses e dos atores políticos desde a fundação da nacionalidade. Tudo se mantém igual e o tempo, e os políticos, mudaram, mantendo-se as relações e interpelações politicas, pessoais, familiares e, acima de tudo de interesses.

A IV República deve surgir com o objetivo único de uma mudança efetiva do regime político, criando-se as ferramentas e os meios para isso. Uma região como a do Vale de Sousa e Tâmega, de meio milhão de habitantes, não pode continuar a ser prejudicada por este sistema eleitoral que elege mais deputados da cidade do Porto do que desta região. Quando falo do Vale de Sousa, posso falar de outras regiões, Vale do Ave e outras. O sistema eleitoral tem de ser revisto, o regime político tem de aceitar esta mudança para se regenerar. Esse é o espirito da IV República.

Falar no número de deputados é o mesmo que questionar o seu excesso. Mudar esta realidade é querer comprar uma guerra com os ditos pequenos partidos, mas é uma necessidade. Outra evidência é terminar com deputados que pouco do seu tempo dão à nação.

A IV República tem emergir da vontade de agilizar o regime regenerando-o, pondo fim a mordomias e outras realidades que só o regime entende.

A consciência coletiva dos males do atual regime, dos males da III República, pois a velocidade da informação é incontrolável, com a internet a tornar o poder, seja ele qual for, num espelho demasiadamente transparente, aconselha a que se repense o estilo e a forma do atual regime, prevalecendo a ponderação e o equilíbrio rumo à IV República.

É mais sensato fazer o caminho desejado pelos portugueses, do que os atores do atual regime firmaram o olhar nas suas certezas inquestionáveis e deixarem cair o regime tal como deixaram cair a soberania do país.

 

In Diário, 29/12/13

publicado por José Carlos Silva às 16:31 | link do post | comentar