Repetia a denúncia. Sem medo.

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Foi sempre assim. Nunca vergou. Nada o demoveu. Ninguém o conseguiu convencer que o certo podia ser o incerto. Incorruptível. Ria-se à gargalhada, num riso escarninho, maldito, de envergonhar os seus corruptores. Denunciava-os, mesmo que não o levassem a sério. Repetia a denúncia. Sem medo.

Toda a sua vida foi desenhada numa grande tela em que a claridade devia prevalecer acima de todas as outras coisas. A assunção dos custos, os efeitos colaterais, seriam sempre questões laterais, secundárias, a ter em conta, mas a relativizar.

O seu pai nunca encontrou tempo para lhe ministrar o equilíbrio da vida, muito menos as estratégias a ter com o não-sentido do quotidiano, com a dor do mesmo e as suas imposições ditatoriais. Cresceu a levar pancada da vida. Primeiro do próprio meio familiar: pais e irmãos perfilhavam a lei do bater com a cabeça na parede para aprender, para crescer. Aprende que o respeito vem no poder da convicção, no poder da palavra que se diz e escreve. No milionésimo segundo que renega o que diz ou escreve, deixa de existir. O poder da palavra ancora na força de quem a esgrime.

Olha o mar e sente uma tranquilidade diferente. Talvez o mar seja o único ao qual fizesse concessões. Olha-o e recorda. Aquela multinacional que poluiu o rio da sua aldeia e queria fugir ilesa. Recorda o telefonema do Espinha, o velho amigo de rapaziadas, de noitadas, da sua adolescência. Recorda o que fez. A guerra insana que moveu àquela empresa. Primeiro nas redes sociais, depois na comunicação social, nos tribunais e, por último, a nível político. O Rio Amor apareceu despoluído. O mesmo sucedeu a outros rios.

Eufrásio é transformado em alvo a abater, não só por aquela empresa, mas por outras empresas. Nunca cedeu.

Primeiro quiseram fazer dele um homem rico. Recusou. E denunciou-os. Depois atacaram o seu carater. Riu-se. E continuou a denunciá-los, expondo-os. Por último, tentaram silenciá-lo. Falharam. E por mero acaso foram presos.

Ceder, é que nunca cedeu. Eufrásio continuou a falar, a escrever e a denunciar. Sem medo.

Santo Romareno

publicado por José Carlos Silva às 22:35 | link do post | comentar