Festas de Santa Ana, as festas que eu sempre amei.

 
 
 

A festa tinha dias marcados: o sábado e o domingo do primeiro fim-de-semana do mês de agosto, impreterivelmente. Não havia que enganar – uma semana após as Festas Grandes do Concelho de Lousada ou do Senhor dos Aflitos.

 

 

Primeiro havia aquilo a que alguns denominavam os preparativos, as abordagens ou as primárias da festa. Durante um ano, 365 dias, os festeiros percorriam a freguesia e terras vizinhas solicitando prendas (a serem leiloadas no bazar) ou donativos em dinheiro, que serviam para custear a festa.

 

 

Era um trabalho solitário e glorioso, pois o festeiro que angariasse mais dinheiro e prendas era, pela certa, glorificado por todos os confrades festeiros e também pela comunidade de Romariz que o bendizia. Recordo-me que o Afonso, meu cunhado, se destacava nessa arte, pois era dedicado e tinha por Sant’ Ana uma devoção ilimitada.

 

 

Havia um sinal claro da proximidade da Festa de Sant’ Ana, o que nos galvanizava e colocava em estado de alerta, era quando grupos de homens de diferentes pontos do Lugar de Romariz iniciavam ao amanho dos caminhos que se bifurcavam num destino certo à capela de Sant’ Ana.

 

 

Era comovente vê-los de enxadas e pás nas mãos, carrinhos de uma só roda, a colocar alguma beleza nos caminhos, vielas e becos de Santana. Obviamente que o garrafão descanava na frescura da mina e de vez em quando refrescava a secura dos lábios e o suor da devoção a Sant’ Ana.

Na sexta-feira, ao fim da tarde, ficava tudo embandeirado: primeiro sinal de festa. E no sábado, logo de manhã muito cedo, despertava-se ao som da música que vinha do alto da capelinha soprada por altifalantes que o Moreira de Macieira ali instalara. Que felicidade!

 

 

Como uma flecha disparava monte acima e só parava junto da aparelhagem de som. Adorava pedir um disco despedido, como via as pessoas ditas grandes, os mais velhos a fazer, mas o Moreira nem dava por ele, um rapazito que nem falava, que passava tempos infinitos a olhar para os discos, como se nunca tivesse visto coisa igual – e a verdade é que só via de ano-, feito parvo, embasbacado, enfim, como um parolo.

Adorava os bombos que percorriam a freguesia, casa a casa, acompanhado dos festeiros, o homem da saca para recolher os donativos.

 

Durante muitos anos não houve noitada, nem ao sábado nem ao domingo – a moda tem relativamente poucos anos. Ao domingo tocavam os bombos durante a manhã e a banda atuava antes e depois da procissão e depois o bazar.

 

 

No sábado, na reta de Romariz, junto à mercearia do velho Rocha ou da Libertinha, dava-se um acontecimento marcante: num matadouro improvisado e ao ar livre, um sem número de anhos e cabritos era preparados e transacionados para que no domingo o bom povo de Romariz pudesse ter à mesa o arroz e o cabrito com batata assada no forno, assim como o cantado bazulaque.

A missa solene e o sermão a cargo do Padre Meireles eram sinónimos de uma manhã abençoada: no alto do monte de Sant’ Ana até as pedras choravam quando o padre Meireles iniciava a sua arenga.

 

 

O almoço – momento de mesa farta e alegria transbordante sob as parreiras dos quintais – funcionava como elemento agregador das famílias e ponto de encontro de todos os enredos.

 

 

À tarde a procissão. Singela e majestosa. Ia para além do cruzeiro (um monumento do séc. XVIII), havendo sempre um florido cruzeiro em madeira, bem perto de onde viria a ser o armazém da cerveja, como balizando os limites entre Meinedo e Boim.

Depois escutava-se a banda de música. E ninguém piava, o silêncio era total! Sempre achei curioso aquele imenso respeito pela banda de música.

 

 

No quase fim, porque ninguém se arrumava para lado algum, havia um pregoeiro que subia ao bazar e iniciava o leilão. E era curioso verificar que as oferendas, na maioria das vezes, eram arrematadas pela mesma pessoa que a tinha ofertado. Curioso!

No fim de tudo estoiravam os foguetes. Não importava se era um fogo-de-artifício grandioso ou menos grandioso, o que importava é que era o final das minhas grandes festas, as Festas de Santa Ana, as festas que eu sempre amei.

José Carlos Silva

publicado por José Carlos Silva às 17:24 | link do post