Verduras Políticas

 

Quase cinquenta anos de ideário fascista facilitaram a libertação e aparecimento de excessos e extremos na sociedade portuguesa. A liberdade tem destas coisas. Os abcessos quando rebentam espalham o pus para todo o lado, os tecidos ficam limpos, aparentemente, mas são necessárias as respetivas medidas curativas, diárias, desinfetar, curar e mudar o penso para não infetar.

A democracia é feita de liberdade, de tolerância, de respeito e de aceitação. Mas pode infetar caso ganhe sucessivos abcessos e estes não sejam lancetados e sucessivamente desinfetados para não gangrenar e morrer.

Nasceu numa família humilde e conservadora, tremendamente católica e fiel a princípios muito rígidos. Nunca os ideais de esquerda se enquadrariam naquelas paredes. E assim foi. Após abril de mil novecentos e setenta e quatro, João Boavida, ficou a saber que só homens como Sá Carneiro ou no mínimo Freitas do Amaral, mas principalmente o primeiro, seriam líderes políticos a ter em conta. E ninguém ousou contestar o patriarca. Ele foi mais longe: Sá Carneiro era o único homem capaz de levar o país ao destino.

Quem o escutasse ficava boquiaberto. Falava pela longa experiência da vida, pois formação académica não possuía. Completou a antiga terceira classe, e muito a custo. O pai, um conceituado mestre-de-obras e carismático regedor de Pias não quis saber das enormes apetências para a aprendizagem, precisava dele para trabalhar, daí que mal entendeu que o seu franzino corpo podia enfrentar as mágoas das jornadas do esforço do trabalho, ala que se faz tarde. E abalou. Tornou-se um excelente trolha e mais tarde um mestre-de-obras de nomeada.

O pai de João Boavida era homem de poucas falas. Por vezes passavam-se dias e dias sem dar palavra. Jantava a matutar na sua lide, que era imensa. As dores de cabeça também eram muitas. Os filhos – rapazes – alinhavam a seu lado, tornando-se seus aliados preciosos. Mas tudo se centrava nele. Tudo passava pelas suas mãos. Pouco falava com a mulher, pois considerava não valer a pena estar a preocupá-la com assuntos que não eram da sua conta. Passava longas horas acordado a equacionar muitos dos problemas e nesses momentos pensava na vida do país, ficando, quantas vezes, perplexo e atemorizado. À ordem, à calma e à certeza das coisas deu lugar ao caos e à incerteza. Todos os dias há sempre uma infinidade de coisas que muda. Ninguém se entende. Onde é que o país irá parar? É só folclore! Nunca poderá ser a esquerda a levantar o país. Pensava. Daí o conselho dado à numerosa prole.

João Boavida venerava o pai. Tinha-o escutado e obedecia-lhe cegamente. Agora sabia que a onda não soprava a favor das ideias do pai e este ia ter um desgosto no primeiro ato eleitoral. Esta era uma certeza que tinha. Até apostava com o pai ou com qualquer um, sabendo que ganhava. Sá Carneiro e o PPD não venceriam. Quem ia ganhar era o punho, o PS e não a seta. O pai tinha medo da foice e do martelo, do PCP, mas esse não ganharia, quem ia cantar vitória era o Soares. Mas não dizia nada. Nem tocava no assunto, não fosse o pai zangar-se com ele. E ele não queria ver o pai chateado, já bastava vê-lo estafado ao fim do dia, sempre calado e pensar no raio da vida. Bebia-lhe as palavras quando, em dias de boa disposição (o que era muito raro), ele entabulava uma conversa sobre um tema qualquer e os filhos ficavam-no a ouvir extasiados. Numa dessas alturas explicou as vantagens de Sá Carneiro ser primeiro – ministro, mesmo que fosse em coligação pós eleitoral com Freitas do Amaral, já que considerava a esquerda inepta para governar o país. Referiu a questão da venda do ouro, da vinda do FMI e da mania do facilitismo, assim como a impreparação para as lides governativas.

Em mil novecentos e setenta e seis o país saiu à rua, em festa, para eleger os seus representantes: autarquias, assembleia da república, governo e presidência da república. À porta das mesas de voto formaram extensas filas de pessoas. Todos queriam votar. Ainda não havia desilusões.

Venceu o punho. A esquerda rejubilou. A alegria foi efémera. Nenhum partido alcançou a maioria absoluta. Perdeu o país. Eanes começou a coçar a cabeça. Como presidente da república já tinha previsto a salgalhada: as indicações de voto, as sondagens, prefiguravam estes resultados. Não havia novidade. Agora restava-lhe chamar o líder do partido vencedor, esperar que formasse governo e rezar que durasse muito tempo. O que não acreditava.

Soares constituiu o primeiro governo constitucional que ardeu num abrir e fechar de olhos. As eleições não tardaram, novamente.

 João Boavida, apesar da tenra idade, olhava com apreensão a deriva do país. Inclinado à direita, acompanhava com deleite o ideário de esquerda, uma liturgia que encantava, uma narrativa que levava à crença e à utopia: tudo era possível.

Acompanhava de perto certos momentos e movimentos à esquerda, e a novidade espicaçava a curiosidade, impelindo-o a festas, encontros e comícios. Pela sua rigorosa e ordenada conceção preferia os eventos do PCP. Sendo verdade que havia uma única força política que tinha a mesma pujança organizativa: o PPP/PSD.

Assistiu a alguns comícios e a algumas festas do PCP. E admirou-os pela fé, pelo ideário e pela perseverança. Acreditavam fielmente nos seus ideais e não tinham medo de enfrentar o presente a favor do futuro. E, à época, sabiam que detinham uma parcela muito grande de poder. Isso notava-se em tudo que faziam e diziam e a sua fé num país em que o povo fosse poder, não tinha limites.

João Boavida nunca esquecerá uma festa do PCP na Vinha da Capela, em Romariz. No grande tanque foi instalado o palco onde desfilaram os quadros superiores do partido, debitando as políticas daquele tempo. Naquela frescura de agosto funcionava o bar com as bebidas fresquíssimas vindas da mina que fornece a água ao tanque. As mimosas emprestavam um ar acolhedor e de sombra. De sábado para domingo houve projeção de filmes de mitos comunistas, como Che Guevara e outros. O frango assado, a sardinha e o pimento assado, o vinho e a alegria a rodos. A festa aberta a todos, mas o perímetro era guardado por jovens de varapaus para evitar surpresas desagradáveis. João Boavida chegou a fazer parte destes guardiães. E nunca foi comunista!

O país sofreu diversos atos eleitorais. Viveu experiências diversas: governos monocolores, a efémera Aliança Democrática, o Bloco Central, as maiorias absolutas, e as diferentes bancarrotas. João Boavida foi sempre um liberal, um homem de direita, mesmo pensando à esquerda.

publicado por José Carlos Silva às 23:19 | link do post | comentar