Quinta-feira, 29.08.13

Da vida e sua beleza

 

Quando falamos da vida e da sua beleza só a sentimos assim até ao momento em que a mesma corre bem, tal como o caudal de um rio que olhamos correndo sereno para a foz.

Quando falamos da vida e da sua beleza só a sentimos até ao momento em que a mesma não se altera, em que os sorrisos de todos os dias nos preenchem, as pequenas ou grandes chatices nos incomodam, os problemas dos nossos familiares, dos nossos filhos, dos nossos amigos, daqueles quem amamos ou de quem gostamos, nos preenchem e ocupam a nossa rotina.

Quando falamos da vida e da sua beleza só a sentimos assim até ao momento em que algo se prolonga indefinidamente: no nosso trabalho, no nosso lazer, no nosso quotidiano.

Mas quando falamos da vida e da sua beleza num contexto em que cada momento é um pretexto de despedida, partindo-se do princípio que essa é a melhor atitude a ter, dada a iminência da provável fatalidade, pois a efemeridade anunciada foi investida de uma fragilidade assaz periclitante.

Neste contexto todas as manhãs são sorrisos e quando a noite retorna não é noite mas um cântico de redenção, pois o tempo é um bem incomensurável.

Aí percebemos quão frágil é o sonho! Aí percebemos quão frágil é a sensação de existir. Aí percebemos quão curioso é o ser humano quando confrontado entre o «existir» e o «não existir», entre o «permanecer» e o «partir» e o estreito percurso de um labirinto percorrido em que o desespero e a angústia predominam.

Ser caminheiro durante um espaço temporal de dias, semanas ou meses – curtos, médios ou longos – de um caminho de labirintos e incertezas, de manhãs cinzentas, de manhãs frias ou lindas de sol, de fins de tarde anunciando outro dia, mergulhar na noite na impaciência da incerteza, despertar de novo para um novo dia e olhar-se ao espelho reganhando forças para persistir.

Repetir a monotonia dos dias, a sua incerteza e aguardar a esperança num sorriso. Porque nestes casos é a esperança que resta. A esperança a calma suave de nunca deixar transparecer a angústia da «despedida» e a terrível fragilidade da «efemeridade» que somos. Porque à nossa volta tudo tem de se manter quieto, sereno, perfeito, como sempre foi.

A perceção da transitoriedade e que tudo se pode esvair é uma estranha sensação. A vida, realmente, não tem preço. Só quem realmente é confrontado com a circunstância da possível efemeridade consegue assimilar a assaz fragilidade do existir e a sua importância.

publicado por José Carlos Silva às 16:00 | link do post | comentar
Domingo, 25.08.13

Odemira - Alentejo singular

publicado por José Carlos Silva às 22:16 | link do post | comentar
Quarta-feira, 21.08.13

Emancipação

 
 
 

 

Persistes correr um caminho estreito, só teu, sem empecilhos,

Sem atilhos, que arrumas todos os dias num passe de magia,

Como se fosse arte.

 

Topo-te à distância, na morte do pai que não ousas idealizar,

No jogo dúbio e no sorriso perdido na espúria tentativa

De desunir. É isto a vida: a persistente arte de ludibriar o outro,

De fingir a vida na inconstância do sonho.

publicado por José Carlos Silva às 22:20 | link do post | comentar
Domingo, 18.08.13

Noitada de Santo Tirso

 

Nesse sábado esperou que a missa terminasse e esperou-a. Viu-a sair com os pais. Descia a escadaria que se oferecia logo após à vetusta igreja de Meinedo. Igreja velhinha, do séc. XIII e que foi edificada sobrepujando um cenóbio Visigótico e onde há também outros vestígios ainda de outros povos: mouros e outros.

Acompanhava os pais. Graciosa e sorridente. Adivinhou que seria aquela a sua noite da sorte. O sorriso abria-se num encantamento noturno, como um por de sol breve mas sedutor. Ele esperava-a e quando ela terminou de contar os degraus da escadaria, aproximou-se e enlaçou-se o sorriso, aprisionou-lhe o olhar e envolvendo-lhe os dedos nos seus dedos, sussurrou-lhe «Amanhã à três horas da tarde, em tua casa.»

Ela nada disse, olhou-o como se a noite se tivesse incendiado e prometeu-lhe a felicidade. Sentiu-lhe o corpo eletrizar-se num breve desfalecimento de loucura.

Envolvia-os a noitada, a noitada de Santo Tirso. Caminhavam. Caminhavam, a mão direita dela enlaçada na mão esquerda dele, olhavam em frente, o olhar de cada um espelhando um sorriso de felicidade, o mais completo e extraordinário sorriso de felicidade; caminhavam, indo ao encontro dos outros mas só eles é que importavam.

 

A noitada de Santo Tirso era de arromba. Naquele sábado fechava o espetáculo o Toni Carreira. Meinedo enchera-se. Parecia um ovo.

Subiram ao cume do monte fronteiro ao salão paroquial. Presenciaram o espetáculo sem paixão. Aquele não era o seu estilo de música preferido.

Amaram-se como o fogo do desejo do olhar, com o toque das mãos e do roçar dos corpos na inocência da noite, pois a promessa só o dia a cumpriria.

publicado por José Carlos Silva às 22:33 | link do post | comentar
Quinta-feira, 08.08.13

Nem soube porque ganhou.

O Comendador da Rampa, Roberto Souto, general de carreira, e detentor de um título de nobreza que ganhava raízes na memória do nascimento do país, vislumbrava o rio na pachorra do dia que definhava, apreciava a ternura e vida na sua eterna indolência.

Na verdade é que nunca chegara a compreender o processamento de determinadas estruturas vitais em determinados organismos ou seres ditos superiores ou racionais que perante determinadas circunstâncias se deixavam levar, ou enlevar, por mirificas ideias de encantamentos sustentadas nas mais puras alucinações de aparentes e estranhas ideias preconceituosas de que a ignara ignorância ainda persistia e a plateia batia palmas a uma sapiência de fato.

Ainda há dias presenciara aquela cena inusitada do Carlindo Maia, arquiteto e político. Coitado, mal ele sabia que eram aplausos de puro gozo, de um sadismo maquiavélico, de um prazer medonho, esperando apenas o dia e a hora fatídica para lhe atenuar a dor e terminar com todos os males de vaidades e presunções de saloiice herdadas dos seus avoengos e de que nunca se libertou.

Carlindo Maia é arquiteto e homem simples e político. Trepou a pulso na vida e na política. É maquiavel puro. Ou talvez pior. E é presidente de câmara de Olhos de Sol. E agora acabou-se o seu tempo.

Acabava-se.

Carlindo Maia decidiu ser presidente de junta. Que estranho! Nada estranho! Se vencer vai ser presidente de junta de uma junta que engloba quinze juntas! E terá tanto poder como o presidente de câmara. Percebido. É assim Carlindo Maia.

O Comendador da Rampa deixou de entender Carlindo Maia. Também deixou de entender os seus antigos apoiantes. Agora não o apoiam. Agora apoiam José Joaquim, o candidato à câmara de Olhos de Sol e a uma ordem de José Joaquim abatem Carlindo Maia. É por estas e por outras que o Comendador da Rampa pouco ou nada entende.

José Joaquim não esconde o claro desejo de ver Carlindo Maia derrotado. A mesma veemente intenção é partilhada por Carlindo Maia relativamente a José Joaquim.

Ontem, no Café Olhar o Sol, o Comendador da Rampa olhou perplexo o povo que ali tomava café. Não falavam em votar no Carlindo Maia ou no José Joaquim, o nome que ouviu sem cessar foi: Gustavo Casimiro, o cabeça de lista do movimento independente. Sorriu.

E foi de sorriso aberto que assistiu à vitória de Gustavo Casimiro, um candidato que nem soube porque ganhou.

 

 

 

 

 

publicado por José Carlos Silva às 12:51 | link do post | comentar
Domingo, 04.08.13

Festas de Santa Ana, as festas que eu sempre amei.

 
 
 

A festa tinha dias marcados: o sábado e o domingo do primeiro fim-de-semana do mês de agosto, impreterivelmente. Não havia que enganar – uma semana após as Festas Grandes do Concelho de Lousada ou do Senhor dos Aflitos.

 

 

Primeiro havia aquilo a que alguns denominavam os preparativos, as abordagens ou as primárias da festa. Durante um ano, 365 dias, os festeiros percorriam a freguesia e terras vizinhas solicitando prendas (a serem leiloadas no bazar) ou donativos em dinheiro, que serviam para custear a festa.

 

 

Era um trabalho solitário e glorioso, pois o festeiro que angariasse mais dinheiro e prendas era, pela certa, glorificado por todos os confrades festeiros e também pela comunidade de Romariz que o bendizia. Recordo-me que o Afonso, meu cunhado, se destacava nessa arte, pois era dedicado e tinha por Sant’ Ana uma devoção ilimitada.

 

 

Havia um sinal claro da proximidade da Festa de Sant’ Ana, o que nos galvanizava e colocava em estado de alerta, era quando grupos de homens de diferentes pontos do Lugar de Romariz iniciavam ao amanho dos caminhos que se bifurcavam num destino certo à capela de Sant’ Ana.

 

 

Era comovente vê-los de enxadas e pás nas mãos, carrinhos de uma só roda, a colocar alguma beleza nos caminhos, vielas e becos de Santana. Obviamente que o garrafão descanava na frescura da mina e de vez em quando refrescava a secura dos lábios e o suor da devoção a Sant’ Ana.

Na sexta-feira, ao fim da tarde, ficava tudo embandeirado: primeiro sinal de festa. E no sábado, logo de manhã muito cedo, despertava-se ao som da música que vinha do alto da capelinha soprada por altifalantes que o Moreira de Macieira ali instalara. Que felicidade!

 

 

Como uma flecha disparava monte acima e só parava junto da aparelhagem de som. Adorava pedir um disco despedido, como via as pessoas ditas grandes, os mais velhos a fazer, mas o Moreira nem dava por ele, um rapazito que nem falava, que passava tempos infinitos a olhar para os discos, como se nunca tivesse visto coisa igual – e a verdade é que só via de ano-, feito parvo, embasbacado, enfim, como um parolo.

Adorava os bombos que percorriam a freguesia, casa a casa, acompanhado dos festeiros, o homem da saca para recolher os donativos.

 

Durante muitos anos não houve noitada, nem ao sábado nem ao domingo – a moda tem relativamente poucos anos. Ao domingo tocavam os bombos durante a manhã e a banda atuava antes e depois da procissão e depois o bazar.

 

 

No sábado, na reta de Romariz, junto à mercearia do velho Rocha ou da Libertinha, dava-se um acontecimento marcante: num matadouro improvisado e ao ar livre, um sem número de anhos e cabritos era preparados e transacionados para que no domingo o bom povo de Romariz pudesse ter à mesa o arroz e o cabrito com batata assada no forno, assim como o cantado bazulaque.

A missa solene e o sermão a cargo do Padre Meireles eram sinónimos de uma manhã abençoada: no alto do monte de Sant’ Ana até as pedras choravam quando o padre Meireles iniciava a sua arenga.

 

 

O almoço – momento de mesa farta e alegria transbordante sob as parreiras dos quintais – funcionava como elemento agregador das famílias e ponto de encontro de todos os enredos.

 

 

À tarde a procissão. Singela e majestosa. Ia para além do cruzeiro (um monumento do séc. XVIII), havendo sempre um florido cruzeiro em madeira, bem perto de onde viria a ser o armazém da cerveja, como balizando os limites entre Meinedo e Boim.

Depois escutava-se a banda de música. E ninguém piava, o silêncio era total! Sempre achei curioso aquele imenso respeito pela banda de música.

 

 

No quase fim, porque ninguém se arrumava para lado algum, havia um pregoeiro que subia ao bazar e iniciava o leilão. E era curioso verificar que as oferendas, na maioria das vezes, eram arrematadas pela mesma pessoa que a tinha ofertado. Curioso!

No fim de tudo estoiravam os foguetes. Não importava se era um fogo-de-artifício grandioso ou menos grandioso, o que importava é que era o final das minhas grandes festas, as Festas de Santa Ana, as festas que eu sempre amei.

José Carlos Silva

publicado por José Carlos Silva às 17:24 | link do post | comentar
Sábado, 03.08.13
Quinta-feira, 01.08.13

Foi-se o sonho.

Aborrecia-o o verão e as férias. Ele entrava em descanso desencontrado ao da mulher. Era curioso: a função pública até nas férias fugia ao ritmo do particular. Durante o resto do ano reinava com o assunto, mas chegado a julho e agosto aborrecia-se com a situação, pois só ao fim de semana contava com a mulher e paradoxalmente o fim-de-semana absorvia-a como se de uma esponja se tratasse. Um ciclo infernal.

Os filhos, homens feitos, a instruírem-se por esse mundo fora, organizavam os seus próprios roteiros de férias, esquecendo do pai e da mãe.

Nesses dias de morrinha, José Lucas da Capitolina, mais conhecido pelo Zé da Rua Direita, dormia sempre até mais tarde, despertava com dores de cabeça – fruto das muitas horas de sossego, dos finos emborcados e do frenesim das conversas e da música sem fim da esplanada do Café Tinoco -, que só vencia após um demorado e retemperador banho de chuveiro e um café bem curto, acompanhado de uma peça de fruta, por norma uma maçã, daquelas vermelhas, raiadas de traços escuros, suculenta e saborosa.

Depois atirava-se ao computador, à escrita das dores do dia no diário que sustinha desde que se conhecia como gente. E quando batiam as doze badaladas na torre da igreja deixava tudo, cruzava a rua procurando o Quincas, o único restaurante de Ribeira Seca.

Invariavelmente serenava a fome ou a vontade de comer com o prato do dia e não passava de trocar as habituais doces palavras com a Nocas Pistoleira, a empregada de mesa que adorava desafia-lo mas que na hora da verdade, do verdadeiro desafio, largava tamanha gargalhada deixando-o sempre completamente desorientado.

Findo o almoço pousava longo tempo na esplanada a apreciar as belas franganotas que por ali se pavoneavam. Na verdade também por ali se podiam ver belas espécies de todas as faixas etárias e de diversas condições.

Naquela terça-feira a esplanada do Tinoco achava-se muito bem composta, sendo a meia-idade prevalente. A um canto, precisamente no canto esquerdo, um grupo de pessoas debruçava-se sobre assuntos dignos de atenção.

O Zé da Rua Direita direcionou a sua atenção para aquele canto, para aquele grupo e para aquele assunto. E percebeu: o tema era a política! Que interessante! Na atualidade era muito raro discutir política numa esplanada em tom sério! Interessante!

Reparou que o mais velho grupo, pelo menos assim o aparentava, era chamado de João Sonhador e era o que mais ouvia e o que já no fim de todos falarem fez a síntese daquele interessante debate:

- «Este é um tempo incerto. A vida esconde-se atrás de um sorriso cinzento e pardacento, mas não sorri. Esgota-se o dia no olhar perdido de outros olhares. Há a esperança à deriva, perdendo-se, esquecendo-se, sem saber o seu destino.

É necessário sorrir, sorrir mesmo na tristeza, sorrir mesma na dor, sorrir mesmo na descrença, sorrir, apenas sorrir. Tentar sorrir, eu sei que nem sempre é possível, pois há sempre um esgar que persiste no olhar e se perde em horizontes de nuvens firmadas em sucessivos desprazeres. E há o sonho que já não persiste no meu sonho, no vosso sonho. Foi-se.»

 

publicado por José Carlos Silva às 17:16 | link do post | comentar

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