Da vida e sua beleza

 

Quando falamos da vida e da sua beleza só a sentimos assim até ao momento em que a mesma corre bem, tal como o caudal de um rio que olhamos correndo sereno para a foz.

Quando falamos da vida e da sua beleza só a sentimos até ao momento em que a mesma não se altera, em que os sorrisos de todos os dias nos preenchem, as pequenas ou grandes chatices nos incomodam, os problemas dos nossos familiares, dos nossos filhos, dos nossos amigos, daqueles quem amamos ou de quem gostamos, nos preenchem e ocupam a nossa rotina.

Quando falamos da vida e da sua beleza só a sentimos assim até ao momento em que algo se prolonga indefinidamente: no nosso trabalho, no nosso lazer, no nosso quotidiano.

Mas quando falamos da vida e da sua beleza num contexto em que cada momento é um pretexto de despedida, partindo-se do princípio que essa é a melhor atitude a ter, dada a iminência da provável fatalidade, pois a efemeridade anunciada foi investida de uma fragilidade assaz periclitante.

Neste contexto todas as manhãs são sorrisos e quando a noite retorna não é noite mas um cântico de redenção, pois o tempo é um bem incomensurável.

Aí percebemos quão frágil é o sonho! Aí percebemos quão frágil é a sensação de existir. Aí percebemos quão curioso é o ser humano quando confrontado entre o «existir» e o «não existir», entre o «permanecer» e o «partir» e o estreito percurso de um labirinto percorrido em que o desespero e a angústia predominam.

Ser caminheiro durante um espaço temporal de dias, semanas ou meses – curtos, médios ou longos – de um caminho de labirintos e incertezas, de manhãs cinzentas, de manhãs frias ou lindas de sol, de fins de tarde anunciando outro dia, mergulhar na noite na impaciência da incerteza, despertar de novo para um novo dia e olhar-se ao espelho reganhando forças para persistir.

Repetir a monotonia dos dias, a sua incerteza e aguardar a esperança num sorriso. Porque nestes casos é a esperança que resta. A esperança a calma suave de nunca deixar transparecer a angústia da «despedida» e a terrível fragilidade da «efemeridade» que somos. Porque à nossa volta tudo tem de se manter quieto, sereno, perfeito, como sempre foi.

A perceção da transitoriedade e que tudo se pode esvair é uma estranha sensação. A vida, realmente, não tem preço. Só quem realmente é confrontado com a circunstância da possível efemeridade consegue assimilar a assaz fragilidade do existir e a sua importância.

publicado por José Carlos Silva às 16:00 | link do post